A menina e o tempo
"Maria fecha a porta.
que lá vem o boi."
E a menina corre pela grama,
rindo das plantinhas que se fecham
como num passe de mágica.
A infância tinha cheiro.
Cheiro de terra molhada,
de mato, de comida boa feita pela mãe.
O almoço de domingo era sagrado,
e o tempo parecia maior,
feito para caber as brincadeiras:
pique, corda, ciranda,
papelão na grama virava escorregador,
lençol virava barraquinha...cabaninha.
Os medos eram pequenos:
a mula sem cabeça, o homem do saco,
o chinelo virado que matava mãe.
E entre sustos e risos,
a menina cresceu aprendendo
que até o medo podia ser amor
quando vinha da voz de uma mãe.
Havia cura na fé,
uma bolsinha com formiga rainha
pôs fim à asma,
e o milagre era aceito sem pergunta,
porque amor de mãe curava tudo.
Hoje, essa menina ,que sou eu ,
olha pela janela e se entristece.
Da janela da minha casa,
eu via um mundo inteiro:
crianças, árvores, o sol,
as histórias que eu inventava
com as coisas simples que via.
Era uma janela que abria o imaginário.
As janelas de hoje são outras.
São telas que mostram tudo pronto,
sem espaço para o sonho.
As crianças já não precisam imaginar:
os mundos já vêm fabricados,
as fantasias vêm embaladas.
E até a maçã do desejo mudou.
Antes, era uma maçã comum,
que ganhava magia nas mãos de uma criança.
Hoje, a maçã virou marca, produto, status.
Perdeu o encanto que só a espera sabia dar.
A infância, que era descoberta,
virou consumo.
E eu, que vivi o tempo da terra e do cheiro,
agradeço por ter conhecido o mundo
através de uma janela aberta,
e não de uma tela acesa.
Porque foi ali,
naquele quintal e naquela rua de chão,
que eu aprendi o que é ser feliz
sem precisar de nada além
da minha própria imaginação.