Ana Paula Cruz

Mulheres de Poder

Textos


A menina e o tempo

"Maria fecha a porta.

que lá vem o boi."

E a menina corre pela grama,

rindo das plantinhas que se fecham

como num passe de mágica.

 

A infância tinha cheiro.

Cheiro de terra molhada,

de mato, de comida boa feita pela mãe.

O almoço de domingo era sagrado,

e o tempo parecia maior,

feito para caber as brincadeiras:

pique, corda, ciranda,

papelão na grama virava escorregador,

lençol virava barraquinha...cabaninha.

 

Os medos eram pequenos:

a mula sem cabeça, o homem do saco,

o chinelo virado que matava mãe.

E entre sustos e risos,

a menina cresceu aprendendo

que até o medo podia ser amor

quando vinha da voz de uma mãe.

 

Havia cura na fé,

uma bolsinha com formiga rainha

pôs fim à asma,

e o milagre era aceito sem pergunta,

porque amor de mãe curava tudo.

 

Hoje, essa menina ,que sou eu ,

olha pela janela e se entristece.

Da janela da minha casa,

eu via um mundo inteiro:

crianças, árvores, o sol,

as histórias que eu inventava

com as coisas simples que via.

Era uma janela que abria o imaginário.

 

As janelas de hoje são outras.

São telas que mostram tudo pronto,

sem espaço para o sonho.

As crianças já não precisam imaginar:

os mundos já vêm fabricados,

as fantasias vêm embaladas.

 

E até a maçã do desejo mudou.

Antes, era uma maçã comum,

que ganhava magia nas mãos de uma criança.

Hoje, a maçã virou marca, produto, status.

Perdeu o encanto que só a espera sabia dar.

 

A infância, que era descoberta,

virou consumo.

E eu, que vivi o tempo da terra e do cheiro,

agradeço por ter conhecido o mundo

através de uma janela aberta,

e não de uma tela acesa.

 

Porque foi ali,

naquele quintal e naquela rua de chão,

que eu aprendi o que é ser feliz

sem precisar de nada além

da minha própria imaginação.

 

 

Ana Paula Cruz
Enviado por Ana Paula Cruz em 19/10/2025
Alterado em 19/10/2025


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